segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Pablo Neruda


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-o e por vezes ele também me amou.
Em noites como esta tive-o em meus braços.
Beijei-o tantas vezes sob o céu infinito.

Ele amou-me, por vezes eu também o amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não o tenho. Sentir que já o perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ele.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Não importa que o meu amor não pudesse mante-lo.
A noite está estrelada e ele não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Tentando trazê-lo meu olhar o procura.
Meu coração o procura e ele não está comigo.

A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.
Já não somos os mesmos de antes, admito.
Eu já não o amo, certo, mas quanto o amei.
Minha voz buscava o vento para atingir seu ouvido.

De outra.Será de outra.Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não o amo, certo, mas talvez o ame.
É tão curto o amor, e é tão longo o olvido.

Porque em noites como esta eu o tive entre meus braços,
minh'alma não se conforma com tê-lo perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ele me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe dedico..


Pablo Neruda, 1924

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